terça-feira, 10 de abril de 2007

Vida interrompida


"Há três horas que Maria e Ana esperam a sua vez na consulta. Para afastar o tédio, mãe e filha aproveitam o tempo para negociar o que vai ser o jantar. Peixe cozido, feijão verde, meia batata, um pratinho de sopa. Num papel, Ana vai fazendo a conta às calorias. Franze o sobrolho, levanta a voz e diz que não. A sopa talvez, mas o resto nem pensar. A mãe encolhe os ombros resignada.

Há três meses que Maria atravessa o rio uma vez por semana para trazer a filha à consulta de Doenças do Comportamento Alimentar do Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Ainda não é de livre vontade que a filha se vem tratar da anorexia que aos doze anos lhe invadiu o corpo e a alma.

Ana aparenta mais idade. O corpo de menina mulher já com as formas femininas bem definidas começa agora a ressentir-se da doença. A pele perdeu o brilho, o cabelo cai-lhe às madeixas, as unhas estão quebradiças e tem frio mesmo quando está calor. Mas ainda resta um brilho no seus olhos verdes e quase a medo ensaia um sorriso. "Eu sei que tenho uma doença mas não o quero admitir. Talvez seja esse o meu mal", diz.

Como em todas as histórias de anorexia, no caso de Ana tudo começou com uma inocente dieta. "Em Novembro de 1999, a Ana começou a dizer que queria fazer dieta. Eu concordei porque ela tinha 11 anos e pesava 69 quilos e prometi colaborar com ela. Só que ela não aceitou a minha colaboração e então eu pensei: a minha filha se não tem anorexia vai ter", conta Maria.

A doença não lhe era de todo estranha e por isso soube descodificar os primeiros sintomas. A dieta tornou-se uma obsessão e em três meses Ana emagreceu 22 quilos. "Eu pensava que a anorexia era só uma consequência da dieta, mas não é verdade. Começa com uma dieta mas já vem de trás, por exemplo de uma mudança de vida. Para a Ana a mudança de vida foi a ida da irmã mais velha para a Alemanha", explica.

Esse não foi o único factor que potenciou a doença. Toda a vida Ana ouviu falar de pesos e dietas. O pai engordou 30 quilos depois de casar e hoje pesa quase 100, o irmão sempre foi magro e comia desalmadamente, a irmã fazia dieta e era gorda e a mãe sempre teve medo de engordar. "Eu toda a vida disse: estás a ver o teu pai? Não vais querer ser assim! Parece que não mas todos esse comentários...", desabafa Maria.

(O meu caso aqui é bastante idêntico, o meu pai sempre foi forte mas depois de casar tambem engordou imenso, hoje deve de pesar á volta de 120 quilos, a minha mãe tambem tem medo de engordar e chega a alimentar-se muitas vezes só de chá e torradas de manhã e aos lanches, ao almoço pouco ou nada come com a desculpa que a comida do trabalho dela não presta, e ao jantar é sopa ou chá e torradas. E passa a vida tmabem a ralhar com o que como...e toda a vida tambem me disse: "estás a ver o teu pai? Não vais querer ser assim!")

Mas não há tempo a perder com culpas pela doença da filha. O importante é fazer tudo o que julga estar ao seu alcance para a ajudar. Ana tem uma versão bem diferente da história. " Eu não me dou bem com a minha mãe. Ela lê o meu diário. Eu sei que ela me quer ajudar, mas acho que a melhor maneira não é ler as minhas coisas. Se ela tivesse um diário de certeza que também não gostaria que eu o fosse ler", reclama.

(Eu também nunca me dei bem com a minha mãe, aliás somos pior que cão e gato. E tambem ela tinha o péssimo hábitro de revoltar as minhas coisas quando era miuda, procurnado coisas que eu escrevesse para as ler. Foi por isso que nunca cheguei a ter um diário ou algo do género, porque ele lia tudo o que apanhava. Eu para descarregar cá para fora as minhas coisas escrevia durnates as aulas nos cadernos da escola, e depois arrancava as folhas rasgava-as e deitava fora.)

Ana diz que odeia a mãe. Maria sabe que não é verdade e ama a filha incondicionalmente. "Há coisas que os pais fazem porque têm de salvar os filhos. Eu não sei se lido bem com esta doença, mas lido dentro das minhas possibilidades. E que Deus altíssimo me perdoe se eu estou a agir mal. Eu só quero o que é melhor para ela e não para mim", defende-se a mãe com a voz embargada pela emoção. Por instantes, a máscara de super mulher cai e Maria chora.

O pai de Ana trabalha em Lisboa, sai muito cedo e chega a casa demasiado cansado. Por isso a mulher procurou sempre mantê-lo à margem do problema. Mas apesar de ser forte e estar habituada a resolver tudo sozinha, Maria não é de ferro e tem os seus limites. "Um dia, depois de meia dúzia de consultas sem ver resultado nenhum, entrei em desespero e disse-lhe: ajuda-me que eu já não sou capaz sozinha. A resposta dele foi que se matava. E então fiquei sozinha à mesma", confessa.

Até agora, Ana veio às consultas quase obrigada e por isso o saldo do tratamento ainda não é positivo. "Eu gostava de ver já resultados e não de a ver avançar e recuar. Ela já emagreceu muito e vai emagrecer mais. Desde Janeiro nunca mais teve o período. Se ela continua a emagrecer eu faço greve de fome. A Ana há-de ver-me emagrecer os mesmos quilos que ela emagreceu. E se ela morrer eu morro também.", diz Maria.

Enquanto isto, dentro de Ana há uma dura batalha a ser travada. "É como se fossem duas pessoas dentro de mim: uma que se quer curar e outra que diz que eu preciso emagrecer", explica. Começou a fazer dieta para se sentir bem, na esperança que uns quilos a menos fossem remédio garantido para acabar de vez com as piadas acerca do seu peso lá na escola.

(É uma luta interior constante, é como se existissem duas pessoas dentro de nós.)

Hoje Ana mede 1m61cm e pesa 49 quilos. O índice de massa corporal de 18,9 confirma o estado de magreza que Ana acredita ainda não ter atingido. "O meu peso ideal era os 40 quilos. Mas o que gostava realmente de ter - isto é um bocado parvo - era 22 quilos", afirma como se estivesse a falar de algo banal. "Eu já fui mesmo gorda - já pesei 69 quilos - e sempre quis ser magra. Agora eu ainda não me acho magra, sou normal. E não sei porquê, mas gostava mesmo de experimentar qual é a sensação de ser magra".

(Eu meço 1.73m e actualmente peso 67kg. Segundo o IMC estou dentro do meu peso. Mas eu sou contra isso. Não acredito nessa conta de IMC. CFada pessoa é que sabe qual é o seu peso ideal. E eu sei que estpou muito gorda. Eu à quatro mese atrás pesava 58kg, e sentia-me gorda. Pode imaginar como me sinto agora...odeio-me. mas o que mais me irrita é toda a gente me dizer que eu agora estou muito magra. Só me apetece-me mandá-las á merda, o que é que elas sabem? Eu tenho 20 anos e daqui voltarei a pesar 70kg, uso 42 de roupa e dizem que estou magra!? Mas esta gente não tem olhos na cara?? Eu já tive vários principios de anorexia. Mas vem sempre alguem que me fode a vida e me obriga a comer, engordando-me como se faz a um porco para a matança. O meu peso é muito irregular, tão deperessa estou magra como estou gorda. Eu sempre fui cheinha desde miuda, mas fico deprimida com isso, então deixo de comer e fico magra mas depois obrigam-me a comer. Eu odeio-me!)

Ana sabe que pode morrer. "Talvez fosse melhor. Eu não gosto de viver", diz com um brilho de revolta no olhar. Assim mesmo, faz planos para o futuro. Quer ir para a Força Aérea porque gosta de aventuras. "Mas não me quero casar nem ter filhos...isso só dá trabalho. Eu vejo que há muitas mulheres que os maridos batem-lhes, os filhos metem-se na droga e elas sofrem".

Ana tem um medo imenso de voltar a sofrer. Como não consegue verbalizar a sua dor escreve. Diários, cartas, livros, aquilo que pensa, que lhe apetece, a qualquer hora, em qualquer papel. "Eu não gosto muito de falar, e depois como não tenho ninguém em quem confio prefiro escrever. Mas não é para ninguém em especial. É para guardar, para que um dia todas as pessoas que pensem fazer o mesmo que eu fiz leiam e percebam que eu também sofri".

(É muito dificil encontrar alguem em quem confiar...alguem que nos perceba e aceite como somos...toda a gente critica este escolha de vida. Temos de aprender a encarar tudo sozinhos.)

Enquanto esperam a sua vez na consulta, mãe e filha vão esperando também pela cura que teima em tardar. Mas como diz o ditado, quem espera sempre alcança... ou será, quem espera desespera?

"Eu tenho esperança, que os médicos consigam curá-la. Mas isso só acontecerá se a Ana também se quiser curar. O primeiro passo é ela querer tratar-se", diz Maria. A filha baixa os olhos e cede. "Eu gostava de me curar psicologicamente mas sem engordar. Por momentos quando estou aqui na consulta consigo afastar-me um pouco da doença e ser eu própria", admite Ana.

Em campo opostos desta guerra dolorosa onde não há vencedores nem vencidos, mãe e filha vão continuar a lutar pelo mesmo objectivo com as armas que escolheram. Neste jogo de força só a anorexia pode sair derrotada. Ou vitoriosa. O futuro o dirá."~

(Eu nunca fui a um especialista por causa disto, sempre me recusei e ninguem me pode obrigar. Não basta já os psicologos que tive de ir, tempo perdido isso sim. No fim concluiram que o meu caso tinha de ser tratado por um psiquiatra mesmo, mas eu nunca fui a uma unica consulta. E tambem jurei que nunca mais poria os pés num psicologo, eles não percebem nada de como me sinto. Odeio tudo o que é médicos. É por causa deles que estou assim. Dão-me coisas para tomar que me fazem engordar.)

Sem comentários: